este é o meu bloco de notas numa aventura asiática

sábado, março 05, 2005

o japão da janela dum comboio local

Parti para kyoto numa saga de 10 horas em comboios locais (algo semelhante ao regional português, com paragem em todas as estações e apeadeiros).
Com uma folhinha escrita à pressa com as estações principais onde devia fazer as (7!) trocas de comboios, logo na primeira estação vi que ia ser mais complicado que eu esperava. Como se previa enganei-me logo no primeiro comboio. Quer dizer, eu não me enganei (cof cof), o destino estava correcto, a confirmação com o agente japonês também, o comboio é que decidiu mudar a rota numa estação qualquer a meio, de certeza que houve um aviso em japonês mas... estranhamente não ouvi nada. Nada de sério, um desviozito de hora e meia.
Back on the righ track a viagem fez-se sem sobressaltos de maior. Viajar no Japão é muito cómodo. As ligações são rápidas e fáceis, os comboios hiper-pontuais e o meu ar de gaijin perdida atraiu alguns japoneses caridosos. A viagem que eu previa secante revelou-se bem animada. À vista de uma cara ocidental os japoneses começam logo a meter conversa “Where are you from”, “how long have you been in Japan”, “where do you live”, where do you study”, “what do you study”, “what do you think about japan”, and so on and so on. Vou começar a trazer uns cartõezinhos com uma compilação das respostas... A parte que me diverte mais é quando digo que estudo na Universidade de Tokyo, ouve-se logo um coro de “oooohhh!” “uuhhhh!” “you are very smart” e, às vezes, até vénias fazem (!!!). É impressionante o status da Universidade de Tokyo.
Seria de esperar que as pessoas que falassem comigo seriam jovens, mas não, o meu companheiro de viagem mais novo tinha 47 anos, ia a caminho da comemoração dos 25 anos de trabalho com os 24 colegas da empresa. A caminho do hotel com onsen ia visitar a campa dum dos colegas que tinha morrido em Portugal (achei estranha a coincidência mas nunca se sabe) com os pais do falecido e os outros colegas. Até da economia de Portugal me perguntou! Cof... “bem e tal... eh pah, aquilo não é o monte fuji?”
Conhecia bem a Europa central já que tinha trabalhado 5 anos em Hamburgo e dizia-me que viajar de comboio na europa era fácil e barato já que, sendo japonês, os lugares de 2ª classe eram suficientemente espaçosos... Comprou-me almoço (sushi de sardinha) e saiu na estação a seguir.
Ok, de volta ao meu livro, de volta às janelas do comboio, de volta às trocas de comboio. Comboio apinhado (mas onde vai esta gente toda? Onde é que eu estou?), um lugar vago, nem tenho tempo de ameaçar pegar no livro quando vejo o meu vizinho a sorrir para mim (oh no here we go again) “Hello”... (dispara lá...) “Where are you from”, “how long have you been in Japan”, “where do you live”, where do you study”, “what do you study”, “what do you think about japan”… Desta vez era um velhote castiço de 78 anos, um inglês razoável, e óculos sem lentes (devia ser para o estilo)... n pára de falar e fazer perguntas, mas tem sentido de humor e na galhofa passam-se mais duas horas de viagem. Diz-me que por ter estudado na Tokyo Universtity quando eu voltar para o meu país vou ser uma Condoleeza Rice (a very strong and inteligente woman)... Cruzes credo penso eu mas lá sorrio e digo que sim, sim. O velhote compincha sai na estação e lá continuo eu na minha saga até kyoto, caraças aquilo é longe!
As estações repetem-se umas atrás das outras, monótonas, todas iguais, entram e saiem japoneses todos iguais, lá fora a paisagem é também monótona e toda igual... Já corri cerca de 400 km e ainda nada se alterou... as casas são as mesmas préfabricadas de tokyo, as estações são as mesmas com as suas praças de táxis e autocarros, os grandes department stores, os neons do pachinko e karaoke a brilhar iguais e monótonos...
Ainda tenho tempo para meter conversa com um australiano que tem vindo nos mesmos comboios desde tokyo... É professor de inglês (como todo o bom australiano no Japão) em kyushu (ilha mais a sul) mas antes era cropieur num casino na austrália. Pelos vistos não há quase requisitos obrigatórios para se ser professor de inglês no Japão. Nem tem que ser a tua lígua mãe, só tens que... saber falar inglês e candidatar-te pelos 54623 programas que existem pelo Japão.
A meio desta última viagem (Maibara-Kyoto, 50 mn) ainda me tentam roubar a mala, dum modo muito discreto. Já farta de pegar na mala e pô-la nas redes por cima dos bancos abndonei-a à entrada do comboio (que é tipo comboio de metro), estamos no Japão, é seguro... mas como eu sou portuguesa e nada é seguro fiquei de olho na mala e qual não é o meu espanto quando, chegados a uma estação qualquer, vejo um puto que não teria mais de 14 anos a pegar na minha malinha e pô-la lá fora com o ar mais descontraído do mundo! Num segundo corri lá para fora e agarrei a mala, nem tive tempo de ver o puto, as portas fecharam-se logo... Dentro do comboio, o australiano sem perceber nada, o meu coração descompassado... E NINGUÉM disse nada, parecia que NADA tinha acontecido... Se calhar ainda achavam que eu era a meliante, a roubar criancinhas. Enfim se calhar o puto achava que a mala estava abandonada e ia entregá-la à polícia...

Em 30 mn cheguei finalmente a kyoto... Telefono à minha amiga que me diz, hoje tenho uma festa mas vens também... ok, vou também! Jantar em casa duns amigos, Ahmed do Dubai, Mohahmed do Egipto, Ahmed da Tunísia e o Juan da República Dominicana... A comer Godiva belgas e kinders buenos vindos do Dubai... O Juan a cozinhar... Ver “Fog of War”, o documentário q ganhou os oscares há uns anos... Guerra Fria, Segunda Guerra Mundial, Bombas Atómicas e discussões políticas... Às 5 adormeço exausta.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Fabuloso....que inveja! (uma vénia... duas ou três!) ;))
aedmoraisathotmaildotcom

12:26 da tarde

 
Anonymous daniela said...

o sentimento é feio, mas é mesmo inveja que eu sinto!! por tudo aquilo que vais poder contar, pelos lugares que conheceste.... arghhh!! ;)
belo post!

12:36 da manhã

 

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